74 revolução

Terça-feira, Abril 19, 2005

A mão do homem

Ardia-lhe o peito. Não sabia bem se pelo peso do papel que trazia no bolso da camisa, se pela marca do olhar daquele homem e pela repentina consciência do que sentia por ele, apesar de tudo. Pouco sabia dele. Era pai da sua mãe, aquele velho que apareceu de repente diante de si.
Era "vermelho", baderneiro e nunca deu nada à família. Foi isso o que sempre ouviu da boca do seu pai, próspero comerciante. — Fui eu quem deu de comer à pobre da sua avó enquanto ele andava preso e o cabrão ainda me cospe no prato!Achava engraçada a rixa de família, mas aquilo tudo tinha sido sempre muito distante para ele.
Poucas vezes esteve com ele, mas lembrava-se vagamente de vê-lo sorrir quando era muito pequeno e iam lá à casa da avó. Entravam e saíam homens, sempre cochichando, atarefados, mas ele sempre lhe sorria.
Cresceu, estudou e agora era já doutor, carro novinho, bom emprego, algumas brigas com o pai, mas nada de sério.
A mãe, enquanto foi viva, pouco falou dele. Tinha mágoas por o pai não ter ido ao seu casamento.
Recebeu a notícia da doença do velho quase como se fosse um estranho e agora isto, este chamado e este estranho pedido.

Chegou à casa do avô contando com uma qualquer questão de dinheiro, um pedido de ajuda, e já estava fazendo contas para se livrar com tranqüilidade do problema. Nada durante seus 28 anos de vida confortável o preparara para o que encontrou lá.
O velho estava sentado na varanda, o corpo pequeno acomodado na cadeira e sobre o colo a mão inerte, contrariando a força contida naqueles olhos resolutos e brilhantes.Sem saber bem como se comportar, estendeu-lhe a mão, mas o velho apenas acenou com a cabeça indicando um banco em frente dele.
Começou a contar o dia do seu nascimento. Disse o velho que chorou. E depois falou de 1974, o ano em que floresceu o cravo.
Nunca tinha tido a mais vaga idéia de que o avô tinha estado mesmo lá, desde a primeira hora e muito antes, preparando a luta.
Achava todas aquelas coisas muito antigas e pouco úteis. O mundo e o país tinham mudado, agora o importante era ser alguém, fazer dinheiro, ter conforto.
O velho falou horas a fio. Às vezes parecia cansado, mas uma lembrança o recriava jovem e forte.
Falou da ditadura, do sofrimento e da morte que espreitou esse país tanto tempo. Falou da coragem dos que conspiraram a manhã de Abril. Mas, mais que tudo, falou do povo nas ruas, do sorriso estampados em todos os rostos, da igualdade possível, dos sonhos feitos de pão, cravos e fuzis.
Falou-lhe que neste dia, enquanto corria por toda parte, pensou nele, no neto pequenino e no mundo novo que se abria para ele.

Depois falou do triste Novembro, em que vieram apagar o sonho e os sorrisos dos homens, mas também da verdade que ninguém apaga. Falou nos 28 desfiles a que compareceu, ano após ano, com a garganta cheia de Abril e esperança. Naquele ano não ia.

Depois se calou, e suavemente desceram daqueles olhos duas lágrimas silenciosas.Ele percebeu que era tempo de ir e, agora, enquanto os faróis comiam a estrada refazia mentalmente os planos para o feriado, como sempre, com seus amigos, velejar…Ardia-lhe o peito, no bolso uma carta aos camaradas de Lisboa, explicando a ausência do seu avô naquela comemoração do 25 de Abril.
Quem foi à avenida naquele ano viu; naquele feriado ele não velejou com os amigos…

Quarta-feira, Abril 06, 2005

Maio-Abril (1968-1975) - 4ª Parte

XI

(Conspiração)

Já não éramos homens
mas palor de coisas,
objectos,
bonecos opacos de feira,
códigos, arames, insectos.

Que remédio
senão conspirarmos com uma cadeira!

José Gomes Ferreira

Maio-Abril (1968-1975) - 3ª Parte

X

(Convidados por um amigo fomos
almoçar a Oliveira de Azeméis.
Lá soubemos que o Salazar tinha
caído de uma cadeira e ia ser
operado ao cérebro.
«Está arrumado» - comentou o
nosso informador, convicto.)

Naquele dia
os anjos mutilaram as mãos de prata
para não o segurarem na queda.

E a terra com alegria
de não ser abstracta
não se abriu em alçapões de seda.

Cada vez mais pedra compacta.

José Gomes Ferreira

Maio-Abril (1968-1975) - 2ª Parte

VII

(Fim-de-semana na minha casa em Albarraque.
Manifesto contra a paciência.)

Não imites a paciência das macieiras
que esperam, há séculos, com o sol por dentro,
o azul total
e as reacções químicas necessárias
para nascerem asas nas maçãs
que pintarão de outra luz
a longa paciência da terra
no ruído calado das manhãs.

Agora são os homens que não querem esperar.
Nem eu com eles.
Queremos asas já.

Abaixo a tua paciência, macieira,
e viva a dinamite verdadeira!

José Gomes Ferreira

Maio-Abril (1968-1975) - 1ª Parte

II

(A caminho da cave do Martinho.
Os ardinas apregoam os jornais com as últimas
notícias do que já chamam com algum exagero,
a 2ª Revolução Francesa... Na Avenida da Liberdade
paro, perto do canteiro onde está um busto de
um morto já morto em vida, para
ver um miudo que joga ao berlinde.)


O perfume da primavera mudou de timbre
confunde-se agora com o sol que o menino encontrou, enterrado no chão,

quando fazia a cova
para jogar o berlinde.

E eis agora ao que se reduz
a aprendizagem da revolução.

Meter cores em covas
e esperar que das sementes
cresçam aves com cantos de sexos nus.

José Gomes Ferreira

Sábado, Março 26, 2005

Catarina Eufémia

Porque a Revolução é feita, muitas vezes através da poesia e porque a própria é Revolução. Falamos hoje de Catarina Eufémia.
Para quem não sabe muito bem quem foi, mais informações aqui.

Cantar Alentejano

Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer

Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou

Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou

Aquela pomba tão branca
Todos a querem p'ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti

Aquela andorinha negra
Bate as asas p'ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar

José Afonso

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Catarina Eufémia

Na vasta planície os trigos não ceifados.
Ao longe oliveiras batidas pelo sol.
Tu serena caminhas para os soldados
com a ideia, para todos um farol.


A brisa não se levantara.
Ias armada apenas da razão.
Contigo os milhões que têm, fome
contigo o povo que não come e que ali cultiva o nosso pão.


O monstro empunhava as armas de aço.
Tu pedindo a paz serena caminhavas
levando um filho no colo outro no regaço.


As armas dispararam, tu tombaste.
Com teu sangue a terra foi regada.

E ali à luz do sol que tudo ardia
dava mais um passo a nossa caminhada.
Na boca da mulher assassinada
certeza da vitória nos sorria.


o sol que o teu sangue viu correr
que teus camaradas viu ali aflitos
ouvirá amanhã os nossos gritos
quando o novo dia amanhecer


Que nessa terra heróica - Baleizão -
onde se recolhe o trigo branco e loiro
teu nome gravado em letras de oiro
tem já cada um no coração

Francisco Miguel

Sexta-feira, Março 25, 2005

O Inicio

Não poderia começar de outra maneira sem ser a falar de Abril. Essa Revolução eterna e nunca terminada... Porque a Revolução não é apenas aquele dia, é também o antes e o depois.
Ficam aqui os comunicados do Movimento das Forças Armadas difundidos naquela noite a partir do Rádio Clube Português.
Para recordar ou, quem sabe, para conhecer.
Comunicado n.º 1
«Aqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas. As Forças Armadas Portuguesas apelam para todos os habitantes da cidade de Lisboa no sentido de recolherem a suas casas nas quais se devem conservar com a máxima calma. Esperamos sinceramente que a gravidade da hora que vivemos não seja tristemente assinalada por qualquer acidente pessoal para o que apelamos para o bom senso dos comandos das forças militarizadas no sentido de serem evitados quaisquer confrontos com as Forças Armadas. Tal confronto, além de desnecessário, só poderá conduzir a sérios prejuízos individuais que enlutariam e criariam divisões entre os portugueses, o que há que evitar a todo o custo.
Não obstante a expressa preocupação de não fazer correr a mínima gota de sangue de qualquer português, apelamos para o espírito cívico e profissional da classe médica esperando a sua ocorrência aos hospitais a fim de prestar a sua eventual colaboração que se deseja, sinceramente, desnecessária.»

Comunicado n.º 2
«A todos os elementos das forças militarizadas e policiais o comando do Movimento das Forças Armadas aconselha a máxima prudência a fim de serem evitados quaisquer recontros perigosos. Não há intenção deliberada de fazer correr sangue desnecessariamente, mas tal acontecerá caso alguma provocação se venha a verificar.
Apelamos para que regressem imediatamente aos seus quartéis, aguardando as ordens que lhes serão dadas pelo Movimento das Forças Armadas.
Serão severamente responsabilizados todos os comandos que tentarem, por qualquer forma, conduzir os seus subordinados à luta com as Forças Armadas.»

Comunicado n.º 3
«Aqui Posto de Comando das Forças Armadas. Informa-se a população de que, no sentido de evitar todo e qualquer incidente, ainda que involuntário, deverá recolher às suas casas, mantendo absoluta calma.
A todos os componentes das forças militarizadas, nomeadamente às forças da G.N.R., PSP e ainda às forças da DGS e da Legião Portuguesa, que abusivamente foram recrutadas, lembra-se o seu dever cívico de contribuírem Para a manutenção da ordem pública, o que na presente situação só poderá ser alcançado se não for oposta qualquer reacção às Forças Armadas. Tal reacção nada teria de vantajoso pois apenas conduziria a um indesejável derramamento de sangue que em nada contribuiria para a união de todos os portugueses.
Embora estando crentes no civismo e bom senso de todos os portugueses no sentido de evitarem todo e qualquer recontro armado, apelamos para que os médicos e pessoal de enfermagem se apresente aos hospitais para uma colaboração que fazemos votos por que seja desnecessária.»

Comunicado n.º 4
«Atenção elementos das forças militarizadas e policiais. Uma vez que as Forças Armadas decidiram tomar a seu cargo a presente situação, será considerado delito grave qualquer oposição das forças militarizadas e policiais às unidades militares que cercam a cidade de Lisboa.
A não obediência a este aviso poderá provocar um inútil derramamento de sangue cuja responsabilidade lhes será inteiramente atribuída.
Deverá por conseguinte, conservar-se, dentro dos seus quartéis até receberem ordens do Movimento das Forças Armadas.
Os comandos das forças militarizadas e policiais serão severamente responsabilizados caso incitem os seus subordinados à luta armada».

Comunicado n.º 5
«Aqui Posto de Comando das Forças Armadas.Conforme tem sido transmitido, as Forças Armadas desencadearam na madrugada de hoje, uma série de acções com vista à libertação do País do regime que há tanto tempo o domina. Nos seus comunicados, as Forças Armadas têm apelado para a não intervenção das forças policiais, com o objectivo de se evitar derramamento de sangue. Embora este desejo se mantenha firme, não se hesitará em responder decidida e implacávelmente a qualquer oposição que se venha a manifestar. Consciente que interpreta os verdadeiros sentimentos da Nação, o Movimento das Forças Armadas prosseguirá na sua acção libertadora e pede à população que se mantenha calma e que se recolha às suas residências. Viva Portugal!».