A mão do homem
Ardia-lhe o peito. Não sabia bem se pelo peso do papel que trazia no bolso da camisa, se pela marca do olhar daquele homem e pela repentina consciência do que sentia por ele, apesar de tudo. Pouco sabia dele. Era pai da sua mãe, aquele velho que apareceu de repente diante de si.
Era "vermelho", baderneiro e nunca deu nada à família. Foi isso o que sempre ouviu da boca do seu pai, próspero comerciante. — Fui eu quem deu de comer à pobre da sua avó enquanto ele andava preso e o cabrão ainda me cospe no prato!Achava engraçada a rixa de família, mas aquilo tudo tinha sido sempre muito distante para ele.
Poucas vezes esteve com ele, mas lembrava-se vagamente de vê-lo sorrir quando era muito pequeno e iam lá à casa da avó. Entravam e saíam homens, sempre cochichando, atarefados, mas ele sempre lhe sorria.
Cresceu, estudou e agora era já doutor, carro novinho, bom emprego, algumas brigas com o pai, mas nada de sério.
A mãe, enquanto foi viva, pouco falou dele. Tinha mágoas por o pai não ter ido ao seu casamento.
Recebeu a notícia da doença do velho quase como se fosse um estranho e agora isto, este chamado e este estranho pedido.
Chegou à casa do avô contando com uma qualquer questão de dinheiro, um pedido de ajuda, e já estava fazendo contas para se livrar com tranqüilidade do problema. Nada durante seus 28 anos de vida confortável o preparara para o que encontrou lá.
O velho estava sentado na varanda, o corpo pequeno acomodado na cadeira e sobre o colo a mão inerte, contrariando a força contida naqueles olhos resolutos e brilhantes.Sem saber bem como se comportar, estendeu-lhe a mão, mas o velho apenas acenou com a cabeça indicando um banco em frente dele.
Começou a contar o dia do seu nascimento. Disse o velho que chorou. E depois falou de 1974, o ano em que floresceu o cravo.
Nunca tinha tido a mais vaga idéia de que o avô tinha estado mesmo lá, desde a primeira hora e muito antes, preparando a luta.
Achava todas aquelas coisas muito antigas e pouco úteis. O mundo e o país tinham mudado, agora o importante era ser alguém, fazer dinheiro, ter conforto.
O velho falou horas a fio. Às vezes parecia cansado, mas uma lembrança o recriava jovem e forte.
Falou da ditadura, do sofrimento e da morte que espreitou esse país tanto tempo. Falou da coragem dos que conspiraram a manhã de Abril. Mas, mais que tudo, falou do povo nas ruas, do sorriso estampados em todos os rostos, da igualdade possível, dos sonhos feitos de pão, cravos e fuzis.
Falou-lhe que neste dia, enquanto corria por toda parte, pensou nele, no neto pequenino e no mundo novo que se abria para ele.
Depois falou do triste Novembro, em que vieram apagar o sonho e os sorrisos dos homens, mas também da verdade que ninguém apaga. Falou nos 28 desfiles a que compareceu, ano após ano, com a garganta cheia de Abril e esperança. Naquele ano não ia.
Depois se calou, e suavemente desceram daqueles olhos duas lágrimas silenciosas.Ele percebeu que era tempo de ir e, agora, enquanto os faróis comiam a estrada refazia mentalmente os planos para o feriado, como sempre, com seus amigos, velejar…Ardia-lhe o peito, no bolso uma carta aos camaradas de Lisboa, explicando a ausência do seu avô naquela comemoração do 25 de Abril.
Quem foi à avenida naquele ano viu; naquele feriado ele não velejou com os amigos…
Era "vermelho", baderneiro e nunca deu nada à família. Foi isso o que sempre ouviu da boca do seu pai, próspero comerciante. — Fui eu quem deu de comer à pobre da sua avó enquanto ele andava preso e o cabrão ainda me cospe no prato!Achava engraçada a rixa de família, mas aquilo tudo tinha sido sempre muito distante para ele.
Poucas vezes esteve com ele, mas lembrava-se vagamente de vê-lo sorrir quando era muito pequeno e iam lá à casa da avó. Entravam e saíam homens, sempre cochichando, atarefados, mas ele sempre lhe sorria.
Cresceu, estudou e agora era já doutor, carro novinho, bom emprego, algumas brigas com o pai, mas nada de sério.
A mãe, enquanto foi viva, pouco falou dele. Tinha mágoas por o pai não ter ido ao seu casamento.
Recebeu a notícia da doença do velho quase como se fosse um estranho e agora isto, este chamado e este estranho pedido.
Chegou à casa do avô contando com uma qualquer questão de dinheiro, um pedido de ajuda, e já estava fazendo contas para se livrar com tranqüilidade do problema. Nada durante seus 28 anos de vida confortável o preparara para o que encontrou lá.
O velho estava sentado na varanda, o corpo pequeno acomodado na cadeira e sobre o colo a mão inerte, contrariando a força contida naqueles olhos resolutos e brilhantes.Sem saber bem como se comportar, estendeu-lhe a mão, mas o velho apenas acenou com a cabeça indicando um banco em frente dele.
Começou a contar o dia do seu nascimento. Disse o velho que chorou. E depois falou de 1974, o ano em que floresceu o cravo.
Nunca tinha tido a mais vaga idéia de que o avô tinha estado mesmo lá, desde a primeira hora e muito antes, preparando a luta.
Achava todas aquelas coisas muito antigas e pouco úteis. O mundo e o país tinham mudado, agora o importante era ser alguém, fazer dinheiro, ter conforto.
O velho falou horas a fio. Às vezes parecia cansado, mas uma lembrança o recriava jovem e forte.
Falou da ditadura, do sofrimento e da morte que espreitou esse país tanto tempo. Falou da coragem dos que conspiraram a manhã de Abril. Mas, mais que tudo, falou do povo nas ruas, do sorriso estampados em todos os rostos, da igualdade possível, dos sonhos feitos de pão, cravos e fuzis.
Falou-lhe que neste dia, enquanto corria por toda parte, pensou nele, no neto pequenino e no mundo novo que se abria para ele.
Depois falou do triste Novembro, em que vieram apagar o sonho e os sorrisos dos homens, mas também da verdade que ninguém apaga. Falou nos 28 desfiles a que compareceu, ano após ano, com a garganta cheia de Abril e esperança. Naquele ano não ia.
Depois se calou, e suavemente desceram daqueles olhos duas lágrimas silenciosas.Ele percebeu que era tempo de ir e, agora, enquanto os faróis comiam a estrada refazia mentalmente os planos para o feriado, como sempre, com seus amigos, velejar…Ardia-lhe o peito, no bolso uma carta aos camaradas de Lisboa, explicando a ausência do seu avô naquela comemoração do 25 de Abril.
Quem foi à avenida naquele ano viu; naquele feriado ele não velejou com os amigos…
